segunda-feira, janeiro 15, 2007

ENTREVISTA #6

Como a música faz, sempre fez e sempre fará parte da vida de muitas pessoas, inclusive da minha, resolvi entrevistar Frederico Finelli, 30 anos, da Submarine Records, que trabalha diretamente com esse mundo maravilhoso, mesmo cheio de tantos obstáculos, nenhum deles impossível de se superar. Nascido em Belo Horizonte (MG), lá fundou a Submarine Records, selo independente que desde 1998 vem lançando artistas do Brasil e exterior. Faz parte do "cast" da Submarine os artistas Hurtmold, São Paulo Underground, The Eternals, M.Takara, além de ter lançado também registros do Againe e Diagonal. Atualmente mora em São Paulo.

* Por Paula Cabral Gomes *

Zine Qua Non: Como surgiu a Submarine Records? De onde veio a idéia e como foi colocá-la em prática?
Fred Finelli: A Submarine iniciou suas atividades em dezembro de 1998. A idéia surgiu da vontade de colocar na rua música independente que nos dizia algo. A prática veio com o lançamento de uma coletânea em cd "some songs, some places, some feelings" (1000 cópias), em maio de 1999.

ZQN: Qual a principal base da gravadora?
FF: A base da Submarine é trabalhar com artistas que façam música que seja relevante pra gente e de preferência (até hoje tem sido assim) que tenhamos uma afinidade, proximidade com o pessoal que lançamos. Temos também uma preocupação em buscar sempre lugares decentes para shows. Locais que respeitem quem está tocando e o público, que é quem vai, paga o ingresso e compra os discos.

ZQN: Como é o relacionamento com as bandas e os músicos?
FF: O relacionamento é bem ok, pois sempre estamos em constante comunicação com os artistas e músicos. A Submarine além de lançar os discos, trabalha em divulgação, suporte e agendamento de shows. Uma relação de cumplicidade entre artista e selo faz a coisa funcionar aqui.

ZQN: De que forma você veio parar no meio under da música brasileira e internacional?
FF: Em 1989 em meio aos discos de trash metal e a era Cogumelo Records (Belo Horizonte) conheci o punk, mas ainda era o punk "clássico" por assim dizer e, juntamente com um amigo (Bruno), começamos a ir atrás de informação, coisa de descoberta mesmo. Daí conhecemos o circuito de shows underground na cidade, as demo tapes, os fanzines, os selos independentes de fora, as centenas de bandas. E o lance era que nessa época quase tudo era feito por carta. Desde pedir um catálogo de lançamentos de um selo, trocar material, fazer amizade, etc. Depois conheci de perto um fanzineiro (Guilherme, do Esquistossonoise). Comecei a colaborar no zine dele, até que em meados dos anos 90 eu criei meu próprio (Needle, que teve 04 #s) e depois montei a Submarine Records.

ZQN: É mais difícil mostrar o trabalho das bandas brasileiras para o público daqui ou para o de outros países?
FF: Acho que o que difere são as realidades culturais, sócio-econômicas e de características próprias dentro do meio independente/underground de cada lugar. Um país que possui uma estrutura, cultura forte voltada para a produção independente recebe melhor o trabalho, o que não é o caso do Brasil.

ZQN: Você considera que o Hurtmold abrir shows dos Los Hermanos é um avanço para o seu trabalho ou é apenas outra maneira de divulgação?
FF: Eu acredito que seja um fruto do trabalho tanto do Hurtmold quanto da Submarine aliado ao fato do Los Hermanos gostar da música do Hurtmold e estar com um olhar voltado para bandas independentes.Para a Submarine é sempre bom ter a oportunidade de mostrar a música para um público que dificilmente iria a um show do Hurtmold no circuito independente. E além do mais, o que eu percebi quando trabalhei nestes shows de abertura é que o público do Los Hermanos é atento e sempre chegou cedo e assistiu os shows do Hurtmold e se interessou pelos seus discos e por informações pertinentes. Isso é muito positivo.

ZQN: Qual é a maior dificuldade enfrentada pela Submarine?
FF: Legal esta pergunta… Sabe o que acontece? Eu percebo e escuto por aí muita reclamação com relação a esta coisa de "dificuldade". Olha, eu tenho certeza absoluta de que as coisas são difíceis SIM, pois passei e passo por muitas, mas tem como você minimizar este sofrimento e não usar estas "dificuldades" como desculpa ou argumento para camuflar uma falta de empenho, descompromisso e um não posicionamento diante das situações que enfrentamos no independente. Então a maior dificuldade talvez seja se situar, saber onde está pisando, ver quem é quem e o que você quer.

ZQN: Maurício Takara, além de tocar no Hurtmold, leva os trabalhos M.Takara e São Paulo Underground, os três acompanhados pela Submarine Records. Como é ver de perto o desenvolvimento de um músico e, de certa forma, ajudá-lo nesse processo?
FF: É sempre bom ver as coisas caminhando. O Maurício além de amigo é um músico que tenho grande admiração. Sempre conversamos sobre os trabalhos, trocamos idéias e discutimos sobre o que se passa. A relação é boa por que não nos comunicamos somente quando tudo está um mar de rosas, e sendo assim as coisas sempre tendem a ficar claras e funcionais neste sentido. É muito gratificante estar de alguma forma junto no processo, mas acima de tudo o Maurício é um cara dedicado, que corre atrás. Ele optou por um caminho e está focado nele, que é fazer música.

ZQN: Como foi a vinda de Joe Lally para o Brasil? Muitos queriam ver o Fugazi em suas apresentações?
FF: Os shows que vi e acompanhei (os três de São Paulo) foram bem bons. Música forte. Achei ótimo o Maurício (Takara) e o Fernando (Cappi) terem tocado com o Joe nos shows, pois juntos deram uma outra roupagem, uma interpretação diferente para as músicas. Foi legal mesmo a vibe entre os três.E quanto aos que queriam ver o Fugazi é aquilo, basta estar informado e disposto em saber o que se passa. O Joe veio ao Brasil com o disco dele lançado. Não era uma surpresa.Então se alguém foi ao show e ficou "desapontado" (notei isso mais no primeiro show) porque esperava a sonoridade da sua banda anterior, "caiu do cavalo" por sua própria desinformação e desinteresse.

ZQN: Qual sua opinião sobre a música brasileira? Tanto a que está na grande mídia, quanto a que vive no chamado cenário underground?
FF: A música brasileira tem o seu poder, qualidade e está representada e sendo feita em tudo quanto é nicho. Como qualquer estilo e segmento, tem suas coisas boas e ruins. Mas aí é de cada um escolher o que te causa, o que te faz bem ou soma de algum modo para o seu dia a dia.

ZQN: Com o (re)lançamento da revista Rolling Stone no Brasil, o questionamento sobre publicações "significantes" brasileiras que falam sobre música (em geral) e outros assuntos com qualidade e conteúdo tornou-se maior. Qual sua opinião sobre as mídias que tratam da música e da cultura brasileiras?
FF: Com relação às mídias relacionadas a música, as que tem me interessado ou pelo menos feito um trabalho decente, no meu ponto de vista, estão no independente. Nâo é também uma quantidade enorme de veículos, mas os que fazem bem estão preocupados em buscar informações, escutar a música e escrever sobre ela. Ou seja, trabalhar, fazer o que se propõem.Na grande mídia a coisa anda bem caída, o que importa ali é estética, comércio, bizarrice, apelação, muita preza e a música ficando em último lugar.

ZQN: Qual tipo de som você curte?
FF: Música em geral. O tempo vai passando e você vai mais e mais conhecendo outras coisas (velhas e contemporâneas) absorvendo informação e o melhor de tudo, tendo novas sensações. Pra mim é vital isso.

ZQN: O que falta para a música brasileira ser valorizada pelo próprio brasileiro?
FF: A música brasileira está aí todo dia, na periferia, nos grandes centros, no interiorzão do país… as pessoas ouvem música brasileira.Acho que só falta os "formadores de opinião" valorizarem/enxergarem o que é produzido no país.

ZQN: O que podemos esperar das bandas que estão aparecendo?
FF: Eu não sou muito de ficar esperando estas coisas… mas se eu tivesse que esperar… esperaria que as bandas fizessem o que quisessem fazer e não o que gostariam que elas fizessem. Um som desprovido de tendências, filões e essas coisas.

ZQN: Você acha que o rock deixou de "fornecer bons filhos" como muitos pensam e dizem por aí? Que apenas encontraremos "mais do mesmo"? (não que eu acredite nisso!)
FF: Acho que sempre há coisa boa surgindo sim. Às vezes este assunto gira um pouco em torno de um saudosismo desnecessário e preconceito até.O que era bom no passado não perde seu espaço hoje e o que está vindo por aí pode ter e tem suas qualidades também. Por que não?

ZQN: Quais são as novidades e os planos de/para 2007?
FF: Em 2006 aconteceu muita coisa boa por aqui. Para 2007 o que posso adiantar são os novos discos do The Eternals e Hurtmold, além do lançamento do cd "mestro", do Hurtmold, na França. E no mais estamos trabalhando aqui para fechar mais atividades para 2007.Mas sempre prefiro abrir a boca quando as coisas estão certas.

ZQN: O que você deseja para a Submarine e para a música para 2007 e os anos seguintes?
FF: Para a Submarine desejo paz e saúde pra trabalharmos. Para a música… humm… sei lá, que venha soprada por bons ventos.

ZQN: Este espaço é seu. Deixe seu recado.
FF: Obrigado a você Paula pelo espaço e pelo interesse.É muito bom poder responder perguntas para um fanzine impresso.Agradeço também a todos que comparecem aos shows do Hurtmold, São Paulo Underground, The Eternals, M.Takara e que compram nossos discos. Feliz 2007!Para conhecer a Submarine Records e seus artistas:
www.submarinerecords.net


Um comentário:

Harrypicadura disse...

eh um cometario pra entrevista #8:
recebi o ZQN e achei muito bom, dá até vontade de fazer um tambem, qualquer dia desses eu faço.
a entrevista foi muito bem elaborada (vc eh jornalista???) e o tema eh dos que eu mais gosto: impressa independente. PARABENS!!!


mas se naum tenho um zine de papel, eu pelo menos tenho um blog, se tiver a fim da uma olhadinha:

http://cantodasala.blogspot.com

brigado
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